Saborosas Recordações

Por : | 0 Comentários | On : Novembro 2, 2018 | Categoria : Blogue

Hoje é Dia de Finados. Em quase todo o mundo se recordam os entes queridos que já partiram. A Igreja Católica, desde o século II, que pede aos fiés para rezarem pelos martires e defuntos. Actualmente, porque o dia 2 de Novembro é dia de trabalho, é no dia 1, feriado, Dia de Todos os Santos, que se faz a romaria aos cemitérios. Pessoalmente, não vou a cemitérios nestes dias. Os meus entes queridos, que já partiram, estão em cemitérios de cidades bem longe da cidade onde vivo. E nao me desloco prepositamente para os homenagear, no cemitério. Recordo-os, isso sim,  todos os dias. Sinto, por vezes, falta das avós. E presto-lhes a minha singela homenagem, recordando e trazendo até mim e à  minha família, o que me ficou delas, o que ainda guardo na memória. Vou perpetuando a sua sabedoria, a sua ternura e doçura quando me falavam e contavam histórias, vou cozinhando os pratos simples, de gente que labutava de sol a sol, no Alentejo profundo.

E é na cozinha que melhor sei homenagear quem já partiu e que tanto amo. Por vezes, no tempo do tomate, faço uma sopa de tomate que me “sabe à vida” e recordo a deliciosa sopa de tomate que a minha avó materna fazia. Adicionava chouriço e toucinho fritos e um ovo escalfado e , para quem gostava, havia sempre uma pequena terrina com sopas de pão. Eu adorava as sopas de pão, alentejano, amassado e cozido pela D. Edviges, a senhora lá do sítio que fazia pão, biscoitos, pupias, pirolitos e, no tempo quente, gelados de refresco Alsa. Era das poucas pessoas que tinha um frigirífico grande e uma arca congeladora e a única que tinha telefone em casa.

A sopa de tomate, a sopa de cação, o doce de tomate, o arroz doce, as papas de arroz (ainda hoje, quando estou doente, com aquelas gripes que me deitam abaixo, a minha mãe vem cozinhar papas de arroz como mimo e ajuda para a recuperação), o cozido de grão, as tibornas (pão ainda quente, saído do forno, barrado com azeite e polvilhado com açucar amarelo…) tudo o que nutria o corpo acabava por nutrir a alma e construía as recordações que me adoçam a vida. E é com estas recordações que homenageio e celebro a vida das minhas ancestrais, que me deram tanto.

No dia de Todos os Santos da minha infância, havia sempre, logo pela manhã, uma grande travessa, em cima da mesa das refeições, com maçãs, romãs, dióspiros, nozes, castanhas, pêras, pupias, broas de erva doce e pequenos cestinhos onde repousavam animaizinhos de figo. Embora típicos do Algarve, até ao Alentejo subiram aqueles docinhos deliciosos que se vendiam no mercado: pequenos cestinhos  com galinhas e peixes de pasta de figo com amêndoas, embrulhados em papel celofane amarelo. As crianças da família tinham direito a um destes docinhos que nos sabiam às mil maravilhas.

Todas estas tradições e costumes de outros tempos se perderam, a minha família deixou o ninho da pequena cidade alentejana onde era mansa a vida mas pobre e por vezes escassa e mudou-se para a grande cidade onde tudo acontece mais depressa, onde se esquecem tantas coisas da vida mansa de outrora. Eu faço a minha parte e procuro preservar, não só as memórias como algumas tradições, ainda que só na cozinha. Mas o mexer e remexer, com a colher de pau, na panela feita caldeirão de boas memórias, traz-me sempre vontade de partilhar convosco, amigos leitores e seguidores das Receitas da Tia Céu, um pouco de mim e das coisas boas que se comem à mesa da minha família.

Homenageiem os vossos entes queridos que já partiram, recuperando antigas tradições gastronómicas das vossas famílias. Não se esqueçam que a nutrição do corpo traz também a nutrição da alma, principalmente se cozinharem com o ingrediente mágico da vida: o Amor.

Fiquem bem!

Abraço da Tia Céu

 

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